Águas pela Paz.

“Em minhas aventuras como explorador da consciência, descobri que tudo aquilo que é belo e verdadeiro, nasce do silêncio interior, os insights, a pureza da criatividade, surge em momentos que nos aquietamos internamente, nasce da calma, da tranquilidade, do nosso coração. Ontem a noite, quando me recolhi na minha prática do cultivo de silencio, fui inspirado a escrever um texto:

Um dos objetivos desse seminário, é a criação de uma aliança global pela conservação e o uso consciente da água no planeta. Nessa palestra eu gostaria de focar num aspecto que nem sempre é considerado nos seminários e fóruns destinados a tratar do assunto, me refiro ao aspecto subjetivo da água e os aspectos subjetivos do desequilíbrio do sistema hídrico, e na medida do possível, quem sabe, tocar até mesmo da subjetividade que também precisa ser considerada quando nos debruçamos para buscar soluções para esse desequilíbrio, mas primeiramente gostaria que lembrássemos de que a água tem sido a guia precursora e mapeadora da jornada evolutiva do homem.

As sociedades sempre se organizaram em torno dos rios, ou seja, das águas. Com a explosão demográfica, desorganizada e com o crescimento caótico das cidades, fomos nos afastando dessa proximidade com a água e a grande maioria da população, especialmente dos grandes centros produtivos, só conhece a água da torneira para dentro e desconhece por completo o percurso da água, da fonte até que ela possa chegar em casa. Isso criou uma desconexão, inclusive, com significado mais profundo da água e por desconhecemos esse significado tentamos encontrar soluções apenas técnicas sem levar em consideração até mesmo elementos pragmáticos deste significado que é a finitude do elemento água. Como um planeta pode ser sustentável com um consumo infinito? E ao desconsiderarmos este aspecto tão óbvio seguimos buscando outras fontes de recursos. Se por exemplo a água acaba aqui, eu busco ali e depois acolá e assim por diante, mas uma hora essa água vai acabar e por acabar nem sempre significa o esgotamento da fonte. Mas pode significar falta de recursos para o tratamento por exemplo, mas independentemente da razão o fato é que a água pode não estar mais disponível se não formos inteligente e razoáveis suficientes. E  nesse caso se ela não estiver mais disponível o que faremos? Vamos explorar outros planetas? É verdade que buscar a água ali e acolá geram algumas coisas positivas, inclusive o tema do Fórum Mundial da Água que acontecerá aqui em Brasília em março próximo será compartilhando água.

A falta de água nos ensina a compartilhar, por exemplo: Israel e Palestina podem divergir sobre religião sobre política, mas a água é um bem comum e muitas vezes para ter as necessidades que são comuns atendidas, precisam de cooperação e compartilhamento, mesmo que seja a base de inúmeras reuniões de negociação e mediação.  Aqui mesmo em Brasília durante essa tão desafiadora crise de falta de água, está sendo feito um acordo com o estado de Goiás para uso comum da bacia do descoberto, isso pode ser tornar um case de operação e compartilhamento, mas temos muito que aprender sobre cooperação e compartilhamento, tanto que será o tema do fórum. Ou seja, a água enseja o diálogo, a cooperação, a paz, daí inclusive o tema do seminário: águas pela paz. A água pode de fato nos levar a uma nova realidade da geopolítica, tendo a negociação a cooperação e o compartilhamento como a base para atender um entendimento ancestral de que a água é para todos. Claro que podemos também escolher o caminho da guerra, da disputa, mas nesse caso não estaríamos aproveitando a chance que as águas estão nos proporcionando de darmos um salto em nossa evolução.

Essa evolução se dá quando temos a coragem de entregar as armas e de sermos compassivos e assim abrir espaço para a fraternidade e igualdade. Evoluir a ponto de amar a todos os seres e de servir a todos os seres. E na base desse projeto evolutivo da raça humana está o entendimento de que a água é para todos mas para que ela possa atender a todos, todos precisam se unir e cuidar dela. Esse cuidar envolve vários aspectos, por exemplo, precisamos olhar com mais objetividade para essa equação onde um planeta não pode ser sustentável com um consumo infinito. E a partir daí, rever nossas decisões, a partir do indivíduo e de pequenos grupos comunitários, pois não temos planos de revisão de nosso modelo econômico ou do capitalismo tão cedo. Outro aspecto do significado da água que foi perdido e que precisa ser considerado numa discussão como essa, é o que estou chamando de subjetividade da água. Embora essa subjetividade seja bastante ampla talvez possamos abordar aqui um dos aspectos que é um denominador comum em diferentes tradições que é ver a água como símbolo dos nossos sentimentos mais profundos e que com isso a própria água está nos mostrando pragmaticamente que não estamos sabendo lidar com ela. Ou seja, não estamos sabendo lidar com nossos sentimentos. Atente para esse ponto, ouça com atenção: No nível pessoal, a resposta para os nossos desafios e desconfortos não está no outro ou distante de nós mesmos, só você pode se transformar e se curar com a ajuda sim de outros, com ajuda sim de quem está distante, conseguimos progredir na autotransformação ou cura das nossas mazelas com uma soma de forças e saberes, mas a cura ou superação do sofrimento se dá através de uma reforma íntima, e no nível impessoal, no nível externo ou coletivo.

Se o exterior é um reflexo do interior como reza as leis do psiquismo, e se estamos reproduzir indo lá fora a mesma inabilidade que temos de lidar com nossos sentimentos aqui dentro, então é certo que seguiremos lá fora nos distanciando da água e buscando ela cada vez mais longe, buscando energia elétrica cada vez mais longe e sem considerar o impacto ambiental e social até a escassez completa. Pois temos essa tendência de negar nossos problemas e buscar soluções mágicas fora de nós, afinal na raiz da miséria humana está a crença de que a felicidade está lá fora e não dentro de nós mesmos. Temos feito mesmo com a natureza matamos um rio e vamos atrás de outro, matamos uma floresta e vamos atrás de outra.

O que proponho é que possamos escutar a mensagem das águas, nossos sentimentos mais profundos. A solução está aqui e não acolá, tanto no aspecto pessoal interior como no impessoal e exterior,  assim como devemos buscar a lidar com nossos sentimentos encontrar a felicidade dentro de nós mesmos devemos também buscar usar a água localmente. Para isso se faz necessário uma mudança de cultura, para que possamos tornar essa proposta factível, pois isso requer plantar água o que por sua vez envolve fazer renascer algumas de nossas florestas, proteger as nascentes, evitar desperdício, diminuir produção de lixo, gerar energia limpa e renovável e especialmente relembrar que a água tem vida e que precisa ser tratada e respeitada como uma entidade viva, como faz muitos dos povos das antigas tradições que ainda mantém a conexão com o grande Espírito. Claro que essa mudança de cultura envolve uma transformação pessoal que começa com autoconhecimento e envolve a REunião da família humana, pois sem cooperação e real união, não é possível resgatar a sustentabilidade do planeta, mas essa cultura de paz começa com você cuidando das suas águas interiores, cuidando dos sentimentos negados, se libertando das mágoas e ressentimentos, se harmonizando com seu passado para que você seja livre para viver no momento presente que é o campo das infinitas possibilidades. O Campo da potencialidade pura. Tenho insistido bastante que o elo perdido entre os aspectos subjetivos e objetivos da vida é o autoconhecimento, por isso ele precisa acontecer em escala e aqui nosso projeto de cuidado com a água envolve também uma ressignificação da educação do ensino fundamental para as nossas crianças, baseado no desenvolvimento de habilidades socioemocionais, porque se fizermos uma leitura objetiva dos problemas atuais na nossa sociedade, incluindo os problemas relacionados com a água, veremos que já temos muitas soluções, já temos muitas respostas para os nossos problemas, temos já soluções incríveis para a grande maioria dos problemas o que precisa é escala. E para acontecer em escala e algumas dessas soluções se transformarem em política públicas, precisamos de inteligência espiritual na forma de caráter e de valores, incluindo a coragem que nos possibilite tomar as decisões e fazer as escolhas adequadas, sem medo de ferir acordos sombrios que vem se perpetuando ao longo do tempo.

É hora de renovação, o mundo clama por um renascimento, sinto que uma das principais mensagens das águas através dos desequilíbrios nos diferentes cantos do mundo, é que é o momento de nos reunirmos enquanto família humana, é o momento de nos unirmos para que juntos encontremos soluções que sejam boas para todos nós. Quando me refiro a juntos, é como estamos mostrando de forma prática aqui nesse seminário, lideranças espirituais das mais diferentes tradições, lideranças políticas de diferentes partidos, cientistas de diferentes instituições e etc. As águas estão nos ensinando a criar união, a fazer paz. E porque aqui no Brasil a sincronicidade é a linguagem da existência? Não acredito que seja uma mera coincidência que estejamos sendo protagonistas da criação dessa proposta. Vejo que estamos aqui no Brasil, é porque o Brasil está com uma ferida exposta gerada por separação e disputa e precisa conseguir se reintegrar. Por isso considero que seja o palco perfeito para darmos o exemplo que é possível curar as feridas geradas pela separação.

Por isso estamos em condições de sermos sim protagonistas na criação de uma aliança global para tratarmos das questões ligadas a esse problema mundial que é a escassez da água gerada pela insensatez humana. Uma insensatez que provocou uma mudança climática sem precedentes, que desmatou as florestas de forma insustentável além do que era possível, que gerou e gera uma quantidade de lixo tremenda e que não sabemos ainda o que fazer com ele, que polui os rios, que vivem em cidades de forma insalubre e nociva, ou seja, fala de uma aliança global para propor soluções para a insensatez. Claro que não é uma tarefa simples, pois precisamos ter o que oferecer, temos que ser sensatos para oferecer sensatez.

Durante esse ano em que trabalhamos juntos para organizar esse seminário, vimos como muitas vezes, fomos insensatos, como muitas vezes, somos egoístas arrogantes, como colocamos nossos interesses pessoais à frente de uma causa que é tão nobre. E por quê? Por que temos limitações, e talvez até mesmo essa proposta de aliança global seja arrogância,  não sei, mas sei que precisamos tentar ou precisamos seguir tentando e tendo a coragem de aprender com os nossos erros.  Resiliência é fundamental, aqui teremos grandes, mas muitos bons desafios, muitas mentes brilhantes que podem contribuir com inteligência e amor para encontrarmos soluções e que possamos criar um documento que será apresentado no Fórum Mundial em março. Que tenhamos o merecimento de canalizar o conhecimento que precisamos, que tenhamos a humildade a referência e as qualidades aquáticas para fazermos o download da mensagem do Espírito das águas e com isso contribuir de forma realmente objetiva para uma mudança de paradigma no trato com as nossas Águas.

Para terminar quero repetir aqui algumas linhas que me veio alguns dias atrás sobre a água: a água é uma manifestação do Amor Divino, através do exemplo, nos ensina valores dos mais elevados, ela nos ensina a generosidade, pois sacia nossa sede e nos dá a vida sem pedir nada em troca. Nos ensina a humildade e aceitação de nunca impor sua cor, é transparente, não se esconde e está sempre fluindo. A água dá de voz a mensageira do grande mistério, para nos lembrar que somos mais que matéria, e vem também através do seu suave e profundo poder, nos ensinar a criar união e paz para que ela não nos abandone.”

Discurso proferido pelo mestre espiritual Sri Prem Baba no II Seminário Internacional Água e Transdisciplinaridade que aconteceu em Brasília nos dias 11 e 12 de Janeiro de 2018. Abaixo link da palestra Magna completa e o Documento-síntese do seminário feito pelos participantes.

https://www.youtube.com/watch?v=S9wJKwvKU_M

http://aguaspelapaz.eco.br/wp-content/uploads/2018/01/Carta-%C3%81guas-pela-Paz_14.01.2018.pdf

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